Hoje vamos lançar a coluna “Doses Arquitetônicas” no blog. Nesse espaço serão apresentados projetos de arquitetura construídos pelo mundo e visitados por nós ou por amigos arquitetos. O objetivo é mostrar o nosso olhar para os monumentos arquitetônicos mundo afora. Estreando nossa coluna, a arquiteta Silvana Coutinho dá dicas e descreve a experiência de visitar a Casa da Música do Porto, em Portugal.

CASA DA MÚSICA DO PORTO PELO OLHAR DA ARQUITETA SILVANA COUTINHO

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Casa da Música do Porto/ Portugal.

Uma das coisas que mais gosto de fazer quando estou viajando é caminhar pela cidade. Talvez porque isso me faz perceber, mesmo que inconscientemente, as relações que o urbanismo e a arquitetura são capazes de produzir entre as pessoas e os objetos que a compõem. Além, é claro, de tentar vivenciar a forma de vida do local, sentir a atmosfera, perceber os deslocamentos, contemplar a arquitetura… E foi assim, caminhando mesmo com tempo chuvoso, que tive a felicidade de deparar-me com a icônica ‘Casa da Música’ logo que cheguei ao Porto, esse ano, na minha última viagem a Portugal.

Projeto do arquiteto holandês Rem Koolhaas, selecionado em concurso realizado em 1999, que buscava uma nova identidade, um marco, um ponto de referência para a cidade, quando o Porto foi escolhido como Capital Europeia da Cultura para o ano de 2001, quando deveria ter aberto suas portas, mas que devido a contratempos, foi inaugurada somente em 2005.

Construída no centro histórico, na zona de ligação entre a cidade antiga e a nova, a construção se destaca do entorno por apresentar um volume monolítico e facetado incrustrado no lote e que, propositalmente, não carrega a leitura da arquitetura local, mas que, estranhamente, se integrou a paisagem e causou uma renovação urbana e social na região.

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Volume monolítico.

E é claro que com toda essa força do partido arquitetônico, eu precisava ver como era o interior daquela construção.

Ao adentrar o prédio, o que me surpreendeu foi a relação do edifício com a cidade, através dos grandes vãos envidraçados que trazem a paisagem urbana para dentro da construção em quase todos os ambientes. Essa relação visual também se estabelece entre os próprios ambientes, sendo possível a visualização da sala principal a partir de sete, das nove salas disponíveis para eventos, sem prejuízo do isolamento acústico, que permite o acontecimento de diversos eventos simultaneamente.

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Vãos envidraçados que permitem a integração dos ambientes interno e externo.

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Paredes inclinadas.

Ao longo de toda a visita foi possível perceber que uma das premissas do projeto é permitir essa continuidade visual, que concede um clima de mistério ao local, com caminhos incomuns, paredes, tetos e chão com planos inclinados. A cada mudança de ambiente, uma sensação de surpresa causada pela grande diversidade de formas, materiais, texturas e cores (em contraponto a austeridade e sobriedade do concreto, vidro e mármore travertino encontrados no exterior).

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Presença de muito vidro e caminhos incomuns.

Todos os ambientes são incríveis e eu já estou achando que seria capaz de escrever um livro de tanta coisa que queria dividir com vocês nesse post, que está ficando muito longo e vai dando aquela preguiça de ler, né? Mas eu prometo que já vou terminar. Entretanto não posso deixar de destacar que na sala principal todos os elementos têm função acústica, desde as “cortinas” de vidro curvo, o tecido das poltronas, os painéis com mescla de ouro que revestem as paredes, passando pela posição das réplicas de órgãos antigos, que parecem ser meramente decorativos. A acústica do ambiente é considerada perfeita por muitos especialistas da música.

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Sala principal com acústica perfeita.

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E pra terminar, uma das maiores curiosidades é que o projeto foi a adaptação de um estudo feito para uma residência de 200m² que se transformou num edifício cultural de 38.000m² e  levou o crítico de arquitetura norte-americano Mark Wigley a expressar que: “A beleza do projeto é provar que uma casa projetada para uma família com exigências extremamente específicas, num local particular, com um certo orçamento pode, com uma eficiência sem paralelo, ser a abordagem certa para um cliente diferente, numa situação diferente, para um programa diferente. Desafia a ideia básica de que o arquiteto tem que auscultar o cliente, o programa, o local, o orçamento – que esses são os fatores que geram arquitetura”.

DICAS

DICA 1: A visitação é permitida, mas somente na companhia de guias da Casa e em horários pré-fixados (consulte o horários e veja com antecedência porque você vai querer tirar muitas fotos antes da visita começar). Durante todo o trajeto (que dura em torno de uma hora), os guias contam um pouco da história, do funcionamento e curiosidades da construção.

DICA2: Quando for pagar pela entrada, sugiro que compre o bilhete conjunto (sai mais barato), que permite a entrada na Casa da Música e na Fundação de Serralves, projeto do arquiteto português Álvaro Siza Vieira, que também vale muito a pena conhecer.

ÚLTIMA DICA: Você pode fazer refeições em um dos dois restaurantes que funcionam na Casa da Música e são abertos ao público. Um deles fica no terraço e tem uma vista privilegiada.

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Um local cheio de surpresas.

MAIS FOTOS

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Casa da Música do Porto – Portugal.

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Fotos: Pinterest.

Curiosos para a próxima DOSE ARQUITETÔNICA?