Madrid: Uma cidade viva que se renova

A Madrid da Gran Vía, da Praça Cibelle, dos museus e da deliciosa culinária todos conhecem, porém, o que muitos não sabem é o que torna viva a cidade. Em Justicia, por exemplo, ela pulsa. Bem no coração deste bairro estão localizadas as áreas de Chueca e Malasãna. Por outro lado, no centro de Madrid, a margem do Rio Manzanares, a vida se renova. Onde antes era asfalto, criou-se um novo centro de lazer e entretenimento: o Parque Madrid Rio.

Chueca e Malasaña.Tão juntas uma da outra que fica difícil saber onde inicia uma e termina a outra. Aqui nasceu um novo reduto, a Movida Madrileña. Tanto Chueca quanto Malasãnas não são bairros com grandes atrativos turísticos, embora três bons museus da cidade — dois deles, grátis — deem o ar da graça justamente por aqui. O divertido da região é tropeçar a cada esquina com geniosas vitrines, caminhar por ruas fofíssimas, comprar coisinhas legais e participar das noites animadas.

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O comércio alternativo e de vanguarda faz um contraponto ao luxo estabelecido nas lojas da Rua Serrano, no bairro Salamanca — refúgio e baluarte dos piros, como são chamados os ricos da cidade. Ainda que muitos alimentem a ideia de que Chueca é um bairro gay e de que Malasañas é a parte punk da cidade, a verdade é que ambos são os mais democráticos de Madrid. A região, que abriga todas as tribos, recebe bem desde famílias com crianças até solteiros em busca de aventura.

A Movida, para quem não sabe ou nunca ouviu falar, foi uma série de acontecimentos que marcaram a história, a cultura e o comportamento dos espanhóis. Na década de 80, após a morte do ditador Franco, a casta sociedade da época experimentou a liberdade através da arte, das drogas e do rock and roll.

Chueca seu nome vem de uma pequena praça dedicada ao compositor Frederico Chueca, onde se encontra a estação de metrô com o mesmo nome. Famosa pela sua noite é uma das zonas mais antigas da cidade, onde se convive o tradicional com o moderno, com uma pegada descolada e de design, cheio de lojas transadas, bares, cafés, pubs e serviços, além de clínicas, agências de viagem e bancos. Talvez a área mais criativa da capital espanhola, que de tão cool é chamada de SoHo Madrileño. Não é só uma zona gay, é um local onde se respira liberdade, respeito e diversidade cultural.

Malasaña tem como ponto central a praça Plaza Del Dos de Mayo, que fica paralela à rua Fuencarral — mais ou menos na altura da estação do Metrô Tribunal. A duas quadras da praça está a Corredora Alta de San Paulo, rua que fica entre a Rua Velarde e a Rua Del Espíritu Santo, com um comércio gracioso e cheio de cafés e bares simpáticos. A história de Madrid considera Malasañas palco de duas revoluções importantes na cidade. A primeira foi um levante contra a ocupação napoleônica em 1808. Uma bordadeira de 17 anos, Manuela Malasaña, foi baleada no dia 2 de maio daquele ano porque carregava tesouras, consideradas armas de “alta

periculosidade” pelos militares franceses. O fato foi tema de uma famosa obra de Goya. O segundo “motim” foi justamente na década de 80, a famosa Movida Madrileña.

MUSEUS, MERCADOS EM CHUECA E MALASAÑA E FUENCARRAL

Museu de História de Madrid: o prédio é um belíssimo exemplo do barroco em Madrid. O acervo, com mais de 60 mil peças, oferece uma visão global das artes, das indústrias e da vida comum dos habitantes da cidade, desde que foi eleita capital da Espanha até os dias de hoje. Com entrada franca, funciona de terça a domingo, das 9h30 às 20h. Calle Fuencarral, nº 78 – Chueca.

Museu Municipal de Arte Contemporânea de Madrid: abriga grandes obras de artistas espanhóis, coleções temporárias e exposições de fotografias. Funciona de terça a sábado, das 9h às 14h e das 17h30 às 21h. Tem entrada gratuita. Calle del Conde Duque, nº 9 – Malasañas. Metrô Venturo Rodriguez ou Noviciado.

Museu do Romantismo: uma joia que só fui conhecer nessa minha última visita à cidade. O museu conserva um importante acervo de objetos artísticos e históricos referentes à corrente do romantismo do século 19. Todo o mobiliário é lindíssimo. Não é permitido fotografar. Além da coleção, o museu oferece um Café Jardim, um espaço maravilhoso para tomar um chá da tarde ou um delicioso café da manhã. Entrada € 3. Grátis aos sábados a partir das 14h. Terça a sábado, das 9h30 às 20h30; domingos e feriados, das 10h às 15h. Calle San Mateo, nº 13. (Já está quase em Alonso Martínez)

Mercado de San Antó. Nessa onda de mercado transformado em praças gourmet, o Mercado de San Antón fica localizado na Rua Augusto Figueroa 24, entre as Ruas Barbieri e Liberdade. Foi projetado pelo arquiteto Carlos de Lá Torre e Costa e inaugurado em maio de 1945. São três andares divididos em mercado tradicional, área de comidinhas e de restaurantes. Há uma enorme ala gourmet, com 10 pontos de degustação de massas, tortas, queijos, presuntos e doces. Oferece rede wi-fi gratuita nos três andares. Lá encontramos várias lojas voltadas ao mundo gourmet, desde frutas até uma loja especializada em azeites, além de pequenas áreas gourmet e um restaurante no último andar chamado Cocina de Sananton. O horário de abertura e fechamento varia, por isso é melhor consultar o site. Uma dica: no subsolo tem um supermercado com ótimos preços.

Mercado de San Ildefonto. Há pouco foi inaugurada a mais nova praça gastronômica madrilenha. São 500 metros quadrados distribuídos em três andares, com mais de 20 boxes de comida variada. A proposta é atrair um público eclético, que gosta de uma boa caña (chope), acompanhada de porções generosas de tapas, o petisco espanhol. A abertura do San Ildefonso acompanha a proliferação de espaços com vocação gourmet em Madrid. Funciona todos os dias, das 12h à 1h (e até às 2h de quinta a sábado). Calle de Fuencarral, nº 57, Malasañas. Metrô Tribunal.

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Calle e Mercado de Fuencarral. Uma das vias de comércio importante e cheia de objetos e artigos de design, com ótimos preços e um dos metros quadrados mais caros de Madrid já foi mais alternativa, hoje abriga lojas caras e tradicionais, como as internacionais Hosten e Tigre. Mas o que mais amo nessa rua são as tendas de design.

O Mercado de Fuencarral é um shopping vertical moderno repleto de lojas de acessórios, cosméticos e roupas de todos os gostos. Próximo ao Metrô Tribunal funciona de segunda a sábado, das 11 às 21h.

Vale a pena conferir Chueca e Malasãnas com todo seu chame e vida cosmopolita. Depois de passar por um período negro, hoje resume o melhor do mundo artístico e despojado de Madrid, como no Soho em Nova York.

PARQUE RIO MADRID

Cada vez mais as grandes cidades se preocupam com os espaços verdes para seus moradores e sua locomoção. Aliar essas duas coisas é um desafio para a arquitetura atual, como ter grandes áreas para lazer sem comprometer a mobilidade de transportes e pessoas. Foi com essa preocupação que o asfalto virou grama em Madrid! O que antes era ocupado por uma marginal M30 a beira do Rio Manzanares, transformou-se em área verde. A prefeitura resolveu devolver às pessoas o espaço antes ocupado apenas por carros ao transformar uma das maiores marginais da cidade em um parque de 9 km de extensão. A marginal M30, que antes poluía e separava bairros e pessoas, agora é o ponto de encontro de muitos madrileños, que redescobriram uma área quase abandonada do centro e do Rio Manzanares.

O PROJETO

O grupo de arquitetos responsável pelo projeto foi liderado por Gines Garrido ao lado do holandês Adriaan Geuze e sua renomada equipe da West 8, empresa especializada em paisagismo e urbanismo. No total foram investidos 5 bilhões de dólares para a construção do Parque Madrid Río, segundo informações do The New York Times. Construído em apenas quatro anos, o parque reúne desde pracinhas e fontes até calçadas, ciclovias, quadras esportivas, ciclovias, praias artificiais e diversos equipamentos públicos que facilitam o deslocamento. Além disso, o espaço segue um plano de integração completo já que, além de unir fisicamente os bairros, também possui dezenas de estações de metrô e trem, conectando zonas da periferia ao centro.

A INTEGRAÇÃO ENTRE O PARQUE A MARGINAL A CIDADE E AS PESSOAS

A integração desses dois projetos de urbanização (Madrid Rio e Madrid Calle 30) interligou bairros e possibilitou a reabilitação do Rio Manzanares. Com os túneis criados para o soterramento da M30 foram liberados 50 hectares de áreas. Para isso, foi necessário construir túneis de conexões urbanas que alcançam 12 km ou uma extensão de 27 túneis. São 49 km de paredes construídas, com uma média de 20 metros de profundidade e 2,5 m de largura por 1 m de espessura, o que possibilitou a construção na superfície do Parque Madrid Rio. Assim, por sobre a via enterrada, hoje há uma área de lazer. As antigas instalações, como os matadouros, por exemplo, foram reformadas e abrigarão exposições e estúdios de arte e dança, fomentando o cenário cultural e criativo de Madrid. Todas essas mudanças “verdes” no centro da cidade vêm agradando, especialmente os moradores da região que foram os maiores beneficiados com a transformação. É como se a cidade tivesse novos pulmões.

CONSEQUENCIA E O RECONHECIMENTO

Madrid transforma essa avenida marginal em parque. Uma obra audaciosa e com uma dimensão que só poderia render o reconhecimento mundial e a conquista de vários prêmios importantes no âmbito internacional. A iniciativa também desperta em outras cidades globais a vontade de transformar grandes espaços dedicados aos carros, em locais de convivência e lazer. Nova York, por exemplo, quer ser a metrópole mais verde do mundo. Para isso, vem redesenhando suas áreas de asfalto e transformando-as em grama, como em Madrid.

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E você? O que achou dessas dicas de Madrid? Visite esses locais e se inspire em um mundo melhor para andarmos e observarmos, mas não por uma janela de carro.